quinta-feira, 8 de abril de 2010

BIMBINHA, O ENTORTADOR DO MARANHÃO

Ele parecia um capetinha. Baixinho e rápido, quando sacudia o esqueleto diante de um adversário, para lhe barrarem, só no tranco. Pra variar, era irmão de Reinaldo e de Egui, dois cobrões das peladas do bairro Tamancão, em São Luis. Um dia, Egui não pode comparecer a um compromisso do time do Atlântico. Na emergência, o jeito foi o treinador chamar um pirralho que vira "vestido de jogador", do lado dos irmãos, pra quebrar-lhe um galho. Resultado: depois do jogo, o homem teve trabalho para tirar o guri da sua equipe. Percebeu, logo, que o garoto era muito mais talentoso do que o irmão titular.
Mas foi por outras hostes, a do Pedrinhas, que o baixinho aconteceu, de montão. A sua turma foi convidada a enfrentar o Onze Irmãos, time de presidiários, e ele matou a pau. Terminou “preso”, pelo diretor da csa de detenção, José Carlos Viana Mendes, que chegou-lhe no cantão, avisando. "Moleque, você só sai daqui se der bode!". Ele queria dizer que o carinha estava intimado a vestir a camisa do Bode Gregório, o nome pelo qual a torcida do Maranhão Atlético Clube chama o seu clube, do qual o "delega" era um dos cartolas.
Pra se ver livre do diretor do presídio, o endiabrado e intimado atacante topou, no ato, respeitar a ameaça do homem. Só que, malandramente, aplicou um tremendo "estelionato desportivo"e na autoridade. e foi rolar a bola com os juvenis do Sampaio Correa. Nos "Bolivianos", apelido da agremiação, que tem as mesmas cores da bandeira da Bolívia, o sujeitinho tornou-se um dos maiores jogadores da história do futebol maranhense.
Com vocês, Bimbinha! Mais precisamente, Reginaldo Castro, maranhense nascido em 10 de junho de 1956, no Tamancão, vizinho do famoso bairro do Bacanga.
APELIDO CERTO - Bimbinha não poderia ser conhecido por um outro nome. Medindo 1m47 e calçando 35, no auge da carreira, ele pesava 51 quilos e ganhava o mais baixo salário no time. Ninguém jamais assistiu a uma partida em que tivesse jogado mal. Sempre atuou regular, ou brilhantemente. Nunca medíocre. Verdade! Por isso era chamado de “Xodó da Vovo” e “Alegria do Povo”. Quando o meio-de-campo esticava uma bola para, pela esquerda, o pobre do marcador já sabia: seria desconjuntado. E ouviria a galera gritar: “ Ripa na chulipa!” De frente pro gol, Bimbinha era fatal. Pelo menos, é o que contam os cerca de 250 gols que marcou.
Bimbinha ponta Djalma Campos como o principal responsável pela sua historia. Em 1975, aquele o levou, para o Sampaio, após vê-lo pintar os canecos numa pelada na salina do Tamancão. Em dois anos, passou, dos juvenis, para o time principal, ganhando o titulo de “Pequeno Prodígio”.
Até 1988, quando defendeu os "Bolivianos", Bimbinha conquistou dois títulos estaduais, como juvenil, e mais nove, como profissional. “Eu esperava pendurar as chuteiras no Sampaio. Depois, ser aproveitado, como treinador de escolinhas, coisas assim. Mas saí sem darem baixa na minha carteira de trabalho, sem receber o Fundo de Garantia por Tempo de Trabalho, dinheiro algum. Não tive a coragem de brigar com o clube. Se tivesse de recorrer contra os dirigentes, tudo bem, seria uma forma de protestar contra a decisão absurda, de me jogarem fora. Esqueceram que o Bimbinha deu muitas alegrias aos tricolores e merecia mais respeito. Nunca fiz bons contratos. Não sei se, por coincidência, sempre que deveria renová-los o clube estava em crise. Eu acreditava nos dirigentes, assinava fiado, para receber amanhã, e o tal amanhã nunca chegava”, desabafou ele, pelo jornal O Imparcial, de 22.11.1989.
Bimbinha demorou a se recuperar do trauma da dispensa do Sampaio. “Como podiam esquecer de certas coisas? Por exemplo: em 1983, fui emprestado à Izabelense, do Pará, e o Moto Clube foi o campeão maranhense. Na minha volta, em 84, recuperamos o titulo, com um gol meu, na final contra o Bode”, exemplifica.
VEREANÇA - Filho de uma família de oito irmãos (quatro homens e quatro mulheres), Bimbinha lançou-se candidato a vereador, por São Luis, em 1988, mas teve de retirar a candidatura. “O presidente do Sampaio não poderia ter concorrentes dentro do clube, pois a fase do clube era ruim e ele precisava se reeleger. Terminei concordando e retirando a minha candidatura”, contou, tmbém, ao Imparcial.
A vingança de Bimbinha, contra os cartolas, aconteceu em 1989. Ele foi para o rival Moto Clube, que levou o título de campeão maranhense, que não conquistava desde 84. Pena que não tivesse sido tão bom assim, para ele. Os dirigentes rubro-negros o viam com certa desconfiança, como se ele fosse um olheiro dos rivais tricolores. Além do mais, o trauma da sua saída do Sampaio fizera Lamartine ficar em melhor forma, lhe sentar no banco e lhe tirar o titulo de melhor ponta esquerda do Maranhão. Bimbinha sentiu que não ali não dava para ele, abandono os treinos e encerrou a sua história "motense".
Casado, com Silvana, e pai de Regis e Silvano, Bimbinha teve Zico e Roberto Dinamite por seus ídolos, nos tempos em que entortava os marcadores. Jogou, ainda, pelo Expressinho e o Tupã, ambos maranhenses. A carreira de treinador não foi longe. Hoje, joga peladas, pelo Maranhão, ganhando pequenas cotas, para sobrevier com o nome feito às custas de muitas entortadas nos becões que desempregava

quarta-feira, 7 de abril de 2010

29 DE OUTUBRO: PELÉ MARCO ZERO

O diretor-provedor do Bauru Atlético Clube, João Fernandes, achava que não poderia haver time pior no mundo do que o dele. Até que, um dia, perdeu a paciência. Mandou toda sua rapaziada embora e colocou um anúncio no Diário de Bauru, convocando garotos, de 8 e 16 anos, para formar uma equipe infanto-juvenil. Só para a primeira peneira, pintou uma centena deles, dos quais o treinador Valdemar de Brito – meia–direita da seleção brasileira de 1934 – encontrou 25 com jeito pra a coisa, entre eles um pirralhinho que fez op diabo com a bola. Pronto! Estava nascendo o Baquinho e Pelé.
O time de João Fernandes estreou em 29 de outubro de 1953, empatando, por 3 x 3, com o Gérson Franca Futebol Clube. No segundo jogo, sapecou 21 x 0 no São Paulo – time amador de Bauru –, com sete gols de Pelé. No ano seguinte, o Baquinho conquistou o título da Liga Bauruense de Futebol, com seis rodadas de antecedência, num ano em que jogou 33 vezes, marcando 148 gols, média de 4,5 por jogo. O presente da garotada foi jogar na capital, contra o Flamengo, da Vila Mariana, na preliminar de Araraquarense x América de São José do Rio Preto. Resultado: 12 x 1 para o Baquinho, com seis gol de Pelé.
Em 1955, o Baquinho foi bi bauruense, mas em 56 acabou. De sua parte, Pelé entrou para o futebol de salão. Por pouco tempo, pois Valdemar de Brito o levou para o Santos, das estrelas Pagão, Del Vecchio, Jair Rosa Pinto e Zito. No mesmo ano, o futuro "Rei do Futebol" marcaria aquele que é considerado o seu “gol marco zero”, no dia 7 de setembro, contra o Corinthians, de Santo André-SP, num amistoso em que o Santos goleou, por 7 x 1. Ainda naquele 1965, ele faria outro gol, em 15 de novembro, nos 4 x 2 sobre o Jabaquara.
Viria, então, 1957, e Pelé encantaria o Maracanã, vestindo a camisa do Vasco, que formara um combinado, com o Santos, para disputar um torneio internacional, a aça Morumbi, reunindo, ainda, Flamengo, São Paulo, o  Dínamo, de Moscou, e Os Belenenses, de Portugal. No dia 19 de junho, ele marcaria três gols do combinado – primeiros tentos internacionais –, nos 6 x 1 sobre os portugueses. Depois, mais um, no 1 x 0 sobre os então soviéticos (22.06); outro, no 1 x 1, com o Flamengo (26.06), e ainda mais outro, no 1 x 0, sobre o São Paulo (29.06).
Quando setembro chegou, “outro 7 de setembro” pintou na vida de Pelé. Um ano após marcar o seu primeiro gol santista, ele balançou as redes, pela primeira vez, com a camisa da Seleção Brasileira. Foi durante o primeiro jogo válido pela Copa Roca, no Maracanã, contra a Argentina, diante de 60 mil pagantes. Para formar um time, o treinador Sílvio Pirillo tivera problemas na convocação, pois os clubes faziam seus caixas, na época, excursionando ao exterior, e não queriam ceder as suas estrelas. O Botafogo,m por exemplo, negou Nilton Santos, Garrincha e Didi, enquanto o Flamengo não cedeu Dida e Dequinha. Pirillo, então, resolveu apostar em dois garotos que vinham arrasando, Pelé, no Santos, e Mazzola, no Palmeiras. De quebra, entregou ao vascaíno Bellini a braçadeira de capitão.
A princípio, a Seleção mostrou-se desconjuntada. Sua defesa não atuava compacta, o meio-de-campo tinha Zito sobrecarregado e, na frente, os pontas Maurinho (São Paulo) e Tite (Santos) eram figuras decorativas. Mais organizados, os argentinos ainda tinham o grande Labruna, que abriu o placar, aos 14 minutos, ao receber um passe, de calcanhar, de Herrera, e bater por baixo do goleiro Castilho (Fluminense).
Era preciso mudar. No intervalo, a torcida que se lembrava das atuações de Pelé pelo combinado Vasco-Santos passou a gritar pelo nome do garoto. Pirillo estava nos vestiários e não ouviu. Mas tivera a mesma intuição. Para o segundo tempo, tirou o centroavannte Del Vecchio (Santos) e mandou a campo o “pirralho”,de 17 anos. E não deu outra. Com um minuto, Pelé empatou o jogo. Moacir (Flamengo) lançou, Pelé recebeu o passe e, de pé direito, com uma cama impressionante para um garoto de 17 anos, colocou a bola à esquerda da “lenda argentina” Nestor Carrizo.
Com Pelé, a seleção subiu de produção, mas ele sozinho não foi capaz de impedir que os argentinos vencessem, por 2 x 1, devido a um erro do goleiro Castilho (Fluminense), que errou numa reposição de bola, para o lateral-esquerdo Oreco (Corinthians). Surpreso, Bellini ficou parado. De posse do “presente”, Labruna só fez repassá-lo a Juárez, que desempatou, aos 38 minutos: Argentina 2 x 1, numa tarde em que o maior cronista esportivo brasileiro da época, Nélson Rodrigues, nem citou Pelé em seu artigo sobre o jogo, na Manchete Esportiva
Três dias depois, no Pacaembu, em São Paulo, diante de 70 mil pagantes, Pelé faria a sua segunda partida e marcaria o seu segundo gol pela seleção brasileira, recebendo passe de Mazzola, que marcara o segundo da vitória, por 2 x 0, na segunda partida contra os argentinos, pela Copa Roca. Como o Brasil tivera melhor saldo de gols, Pelé começou a sua vida canarinha logo como campeão – há 50 anos.
FICHA TÉCNICA - - Data 7.09.1957; Brasil 1 x 2 Argentina; Local: Maracanã; Árbitro Erwin Hieger (Áustria); Público: 60 mil pagantes, Gols: Labruna e Juárez (Arg) e Pelé (Bra). Seleção Brasileira: Castilho; Paulinho de Almeida, Bellini e Jadir. Oreco e Zito (Urubatão), Maurinho, Luisinho, Mazzola (Moacir), Del Vecchio (Pelé) e Tite. Técnico: Sívlio Pirillo. Argentina: Carrizo; Pizarro, Vairo e Giansera; Néstor Rossi (Guid) e Urriolabetia; Corbatta, Herrera (Antonio), Juárez (Blanco), Labruna e Moyano. Técnico: Guillermo Satábile

1968: O ANO QUE NÃO DEVERIA TER TERMINADO PARA O BOTAFOGO

Naquele tempo, o Campeonato Carioca era o mais charmoso do futebol brasileiro. O país inteiro o acompanhava, pelo rádio. O Paulista, também, era uma parada, mas perdia, em glamur, para o da Cidade Maravilhosa.
Pois bem! Em 1968, o time da moda era o Botafogo, que já havia conquistado a Taça Guanabara, ainda uma disputa à parte, e o Estadual, um ano antes, com Mário Jorge Lobo Zagallo nos inícios de sua carreira de treinador. A temporada fora demais: Botafogo campeão da Taça Guanabara, do Carioca e da Taça Brasil, o embrião do atual Campeonato Brasileiro.
Gloriosos tempos! O Botafogo jogava com tanto conjunto e juventude empolgantes, que todo garoto que começava a gostar de futebol queria ser botafoguenses. Naquele timaço, armado pelo Lobo, só o maestro Gérson e o zagueiro Sebastião Leônidas eram veteranos. Trabalhar com a juventude era o que o Zagallo mais sabia, afinal conquistara o Campeonato Carioca de Juvenis, em 65, revelando Afonsinho e muitos outros cobrinhas.
O Botafogo até que poderia ter feito a dobradinha dos mesmos títulos em 67 e 68, se não fosse uma incrível decisão no cara-ou-coroa, com o Atlético-MG, o que o tirou da Taça Brasil. Por falar nesta, a final da última disputa daquela competição, a de 68, até que foi mole. Colocar o grande Botafogo, de Rogério Hetmaneck, Jairzinho, Roberto Miranda e Paulo César Lima, diante do Metropol, de Criciúma-SC, foi até uma covardia do destino. Mas o grande lance mesmo daquele supertime de “Seu Zagallo” aconteceu na decisão carioca de 68, mais precisamente no dia 9 de junho: 4 x 0 em cima do Vasco, num domingo em que o Maracanã bateu os recordes nacionais de público – 120 mil e 178 pagantes – e de renda – NCr$ 513 milhões, 379 mil e 25 novos cruzeiros, a moeda da época.
CATIMBA - Guerra-fria foi o que não faltou na semana da decisão carioca de 1968. A torcida alvinegra falou em raptar o goleiro vascaíno Pedro Paulo, o atacante cruzmaltino Bianchini soltou a língua contra seu ex-clube e os cartolas alvinegros falaram em antidoping para os jogadores do Vasco. Fora de campo, a polícia mandava avisar que prenderia quem soltasse foguetes ou bombas no estádio. Além do mais, o árbitro escalado para o clássico, Armando Marques, o então melhor do país, fora pressionado a indicar os auxiliares da arbitragem.
Passada a catimba pré-jogo, ainda teve a de última hora. Por não quererem entrar em campo, antes um do outro, os dois times atrasaram o início da partida em 21 minutos. Foi preciso muita conversa entre a cartolagem para ambos entraram juntos, debaixo de muito foguetório e chuva de papel picado. Quando a bola rolou, só deu Botafogo. O Vasco não o ameaçou em nenhum momento. Com 14 minutos de jogo, Roberto Miranda estufou as redes vascaínas. Aos 33, Rogério fez mais um, para os alvinegros virarem o primeiro tempo com 2 x 0 no placar.
Na etapa final, foi a mesma festa. Jairzinho aumentou, para 3 x 0, aos 17 minutos, e Gérson fechou o placar, aos 20. Por sinal, quando o "Canhota" balançou a rede, os reservas botafoguenses invadiram o gramado, comemorando já o título. Foram todos expulsos de campo, o que impediu Zagallo de fazer as substituições que pretendia no segundo tempo. Pra piorar, na comemoração do gol, Zagallo bateu com o nariz na máquina de um fotógrafo.
CANHOTINHA DE OURO - Gérson, que levantou a taça, no final da partida, foi a maior figura em campo. Naquela tarde, ele interceptou, desarmou, armou, atacou, defendeu e cantou as jogadas alvinegras. Além dele, Sebastião Leônidas mandou na zaga, enquanto Carlos Roberto, no meio-de-campo, e Rogério e Jairzinho, no ataque, foram outros destaques, o que não houve no time vascaíno.
A goleada botafoguense valeu o bicho de NCr$1.500 (novos cruzeiros), enquanto os reservas levaram 500 a menos. Já o prêmio pelo título ficou de ser fixado, depois. Para fechar as comemorações, os campeões foram recebidos, no dia seguinte, no Palácio Guanabara, pelo governador Negrão de Lima.
FICHA TÉCNICA - Data: 09.06.1968; Local: Maracanã. Gols: Roberto, aos 14, e Rogério, aos 33 min do 1º tempo; Jairzinho, aos 17, e Gérson, aos 20 min do 2º tempo. Árbitro: Armando Marques, auxiliado por Antônio Viug e Amílar Ferreira. Público: 120 mil e 178 pagantes e 21.511 menores. Renda: NCr$: 13.379,25 (novos cruzeiros, moeda da época). BOTAFOGO: Cao; Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir: Carlos Roberto e Gérson; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo César. Técnico: Mário Jorge Lobo Zagallo. VASCO: Pedro Paulo; Jorge Luís Brito, Ananias (Sérgio) e Ferreira; Bougleux e Danilo Menezes; Nado (Alcir), Nei, Valfrido e Silvinho. Técnico: Paulinho de Almeida.

terça-feira, 6 de abril de 2010

6 DE ABRIL: O DIA EM QUE PELÉ RUBRONEGROU

Pelé "flamengou", em 1979, por 45 minutos. Disputou o amistoso em que o Mengão goleou o Atlético-MG, por 5 x 1, no Maracanã, em benefício de vítimas de enchentes em Minas Gerais. Ele já estava “aposentado”, aos 38 anos de idade, e tinha feito alguns treinos, com a rapaziada santista. No Rio de Janeiro, provocou  histeria, na véspera da partida, quando fez seu único coletivo na Gávea. Arquibancadas e até mesas de um bar ao lado do estádio ficaram totalmente lotadas. Sem falar das janelas dos prédios vizinhos. Nem um forte esquema de segurança o livrou da tietagem.
Pelé chegou ao território flamenguista, pouco depois das 15h, junto com o empresário Alfredo Saad e o jornalista Oldemário Toguinhó, encontrando uma multidão o esperando, na porta. Abraçou Adílio, chamando-o de “meu futuro” e, com o meia, entrou abraçado no estádio. Em seguida, foi para o vestiário, vestiu a camisa branca, dos titulares, virando-a para não destacar o nome de uma firma de roupas. Passou 15 minutos concedendo entrevistas e posou para fotos, até o treino começar.
Passado o leve aquecimento, Pelé disputou 30 minutos de coletivo, tempo suficiente para fazer algumas deixadas, tabelas, dribles, uma cabeçada que mandou a bola no travessão e uma enfiada para Júnior (Leovegildo Lins Gama) marcar um dos gols do seu time – 3 x 0, com dois de Zico.
Fim de treino. Pelé previa que daria pra se entender legal com Zico, porque percebera o Fla tocando certinho na bola, facilitando a sua vida. Sobre o “Galinho de Quintino”, declarou: “Jogar ao lado do Zico é fácil, pois o que faz a graça do futebol é a criatividade, coisa que o garoto tem bastante”. Só um iten o decepcionava: o gramado da Gávea, muito irregular, pois ele já estava acostumado com a grama sintética dos seus tempos de Cosmos, nos Estados Unidos, onde encerrara a carreira. Mas se dizia com “fome de bola” e a vontade de jogar até quando suportasse, principalmente, pelo prazer de voltar ao Maracanã, estádio que sempre lhe aplaudira – o treinador do Fla, Cláudio Coutinho, deixara aquilo por conta dele.
O GRANDE DIA - Pela manhã, quase 200 operários limparam o Maracanã, enquanto outros tantos pintaram, de branco, a área em que o presidente João Figueiredo passaria. Banheiros, mal conservados, receberam sabonetes e papel higiênico. Por volta das 17h30, uns 10 mil torcedores já aguardavam pela abertura dos portões do estádio, marcada para as 18h. Como ingressos de arquibancadas esgotaram-se, um dia antes, só se encontrava bilhetes para a geral e os camarotes, o que fazia os cambistas venderem a entrada de arquibancada por Cr$ 200 cruzeiros, quatro vezes mais do que o valor nas agências bancárias.
Perto das 19h, um susto: o centro do Rio de Janeiro ficou às escuras, por cinco minutos, alvejado por relâmpagos e trovões, que chamaram um tremendo temporal, dez minutos depois. Resultado: os oito quilômetros de distância do Maracanã consumiam, em média, em 45 minutos, devido o engarrafamento de veículos. Estações do metrô, especialmente, na Praça da Bandeira, viraram um inferno.
O indesejável, porém, passou e chegou o grande momento. Nas tribunas do Maracanã, estavam o presidente da república, o general João Figueiredo, o ministro da Justiça, Petrônio Portella, os respectivos governadores do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, Chagas Freitas e Francelino Pereira, o deputado Magalhães Pinto, presidente do Congresso Nacional, até 1977, quando era senador, e o presidente da ainda Confederação Brasileira de Desportos – antecessora da Confederação Brasileira de Futebol – o almirante Heleno Nunes. Nas arquibancadas, cadeiras, camarotes e geral, 139 mil pagantes, que proporcionaram a renda de Cr$ 8.781.290,00 (cruzeiros e recorde da época), com cota de Cr$ 300 mil, pra cada clube.
FIGUEIREDO ERRA PLACAR - O presidente brasileiro chegou ao estádio às 20h15, recebido por Chagas Freitas e Heleno Nunes. Na tribuna de honra, sentou-se ao lado do irmão Luis Felipe e do chefe do governo estadual. Portava um rádio à pilha, para escutar a narração da partida. Antes, pela entrada das cadeiras especiais e cativas, demorara-se por cinco minutos. Depois, na sala vip, durante meia-hora, batera papo com autoridades. Sentou-se, para assistir ao amistoso, no instante em que os dois times pisavam no gramado, com os autofalantes anunciando a sua presença. A torcida nem deu bola. Preferiu agitar as bandeiras do Fla e se ligar na imagem de Pelé, projetada pelo placar eletrônico.
Figueiredo, que elogiara a atitude colaboradora do “Rei”, adotara, naquela noite, postura de chefe de estado, de torcedor frio. Mostrou um sorrisinho, quando Zico empatou o jogo – em 1 x 1, aos 36 minutos do primeiro tempo, cobrando um pênalti, à direita do goleiro João Leite (Marcelo Oliveira havia feito 1 x 0, para o Galo, aos 22, penetrando, entre Rondinelli e Manguito, após cruzamento de Serginho) – e fez breves comentários sobre os lances mais importantes. No mais, só um palpite errado: placar de 2 x 2.
O REI FERIDO - Pelé foi para o jogo com um estiramento no músculo adutor da coxa direita, provocado pela repetição de uma cobrança de falta, durante o treino, na Gávea. Só contou aquilo para o técnico rubro-negro, Cláudio Coutinho, o médico Célio Cotecchia e seu secretário particular, José Xisto, quando se reuniu ao time, na concentração, em São Conrado. Havia ficado na dele, para não dar a impressão de que estava “afinando”, no que fora apoiado por Xisto.
Entusiasmado, Pelé avisou ao secretário que jogaria de qualquer maneira, chegando a comparar o sentido daquela programação com uma final de Copa do Mundo. E arrematou: “Coloco um remédio em cima (do local contundido) e tudo está resolvido. Fique descansado” – e vestiu a 10 rubro-negra, com a braçadeira de capitão, numa cortesia do titular do posto, Paulo César Carpegiani.
ROLA A BOLA - Flamengo e Atlético-MG eram os campeões de seus estados, com equilíbrio no confronto, nos últimos 13 anos. Em 21 jogos, Fla 8 x 7, além de seis empates. No jogo anterior, em 06.08.78, os rubro-negros haviam feito 2 x 0, amistosamente, no Mineirão, o que tornava o novo duelo numa revanche, com o time de Zico invicto, há 38 partidas.
Rolava a bola e os atleticanos reduziram seu ritmo, após abrirem o placar. Com Pelé procurando mais o jogo e Andrade marcando Marcelo Oliveira mais de perto, o Fla cresceu, empatou e dominou. Matou o Galo, no segundo tempo, quando Luizinho estava na vaga do “Rei”. Os rubro-negros ganharam mais velocidade nas penetrações. Aos 8 minutos, Zico, trocando passes, com Luisinho, e trombadas, com os zagueiros mineiros, virou o placar, para 2 x 1. Aos 14, Júlio “Uhri Geller” César “entortou” o lateral Alves e cruzou para Zico fazer 3 x 1. Aos 27, da intermediária, Zico lançou Luisinho, que penetrou pelo meio da área, cortou Osmar e, de pé direito, aumentou para 4 x 1. aos 39, com o Flamengo já desinteressado do jogo, fechou o placar. Júnior partiu, da intermediária, com bola dominada, lançou Adão – entrara no lugar de Zico, após o quarto gol – que “liquidou a fatura”, na saída de João Leite: 5 x 1.
FICHA TÉCNICA – Data: 06.04.1979. Estádio: Maracanã, no Rio de Janeiro. Gols: Marcelo Oliveira, aos 22, e Zico, aos 36 min do 1º tempo; Zico, aos 8 e aos 14; Luisinho, aos 27, e Cláudio Adão, aos 39 min do 2º tempo. Árbitro: Valquir Pimental, auxiliado por José Carlos Moura e Roberto Coelho. Público: 139 mil pagantes. Renda: Cr$ 8.781.290,00. Flamengo: Cantarelle; Toninho Baiano, Rondinelli (Nélson), Manguito e Júnior: Andrade, Paulo César Carpegiani (Ramirez) e Zico (Cláudio Adão); Titã, Pelé, Luisinho e Júlio César (Reinaldo Gueldini). Técnico: Cláudio Coutinho. Atléticvo-MG: João Leite; Alves, Osmar, Luizinho e Hilton Brunis; Toninho Cerezzo, Marcelo Oliveira e Paulo Isidoro; Serginho (Pedrinho), Dario “Dada Maravilha” e Ziza (Vilmar).

sexta-feira, 2 de abril de 2010

UM BRASILIENSE INVICTO NA GÁVEA

     É muito difícil um atleta passar invicto durante o tempo em que defende um clube. Um brasiliense, porém,  conseguiu o feito: Márcio Amoroso dos Santos, nascido em 5 de julho de 1974. Com rubro-negro, entre 8 de março a 23 de junho de 1996, ele jamais sofreu um revés, em 22 jogos e 5 gols marcados. Coseguiu o índice de 86,3% de vitórias.
   Os tentos do goleador candango com a camisa rubro-negra começaram na estreia, nos 4 x 1 sobre o Linhares (ES), em 08.03.96. Seis dias depois, ele repetiu o feito, nos 2 x 1 sobre o Volta Redonda. A terceira bola na rede foi em 22 de maio, durante o empate, por 2 x 2, com o Bangu, enquanto as duas últimos, respectivamente, ocorreram em 10 de junho, na goleada, por 5 x 1, sobre o Madureira, e, em 23 do mesmo mês, nos 4 x 1 em cima do América.
  Amoroso surgiu nas peladas da Assinfra. Levado, pelo empresário José Roberto, para o Guarani, de Campinas, “explodiu”, em 1994. Depois do Flamengo, foi para o Parma, da Itália, tendo, na temporada 1997/1998, se tornado o primeiro brasileiro artilheiro de um campeonato italiano, com 22 tentos, já pela Udinese, de Udine em 1994.
    O sucesso na "bota" levou Amoroso para o alemão Borussia Dortmund. Depois, defendeu o espanhol Málaga, voltou ao Brasil, em, 2005, e conquistou, pelo São Paulo, a Taça Libertadores e o Mundial de Clubes da Fifa, no Japão. Os próximos passos foram passar, rapidamente, por Corinthians e Grêmio Porto-Alegrense, voltar à Itália e defender o Milan, sem sucesso.
   Em 2008, Amoroso esteve no Aris Salonica, da Grécia, onde fez três jogos – 3 x 3 Panionios; 0 x 2 Xanthi e 2 x 0 Atromitos. Sem receber salários, voltou a Campinas e tentou reingressar no “Bugre”, pelo qual só conseguiu fazer um jogo, em oito de fevereiro de 2009, nos 2 x 2, com a Ponte Preta, pelo Paulistão da Série A-1. Aos 34 anos, não dava mais. Seu estado físico e contusões do passado lhe barravam.
   Sem marcar gols, pelo Fla, Amoroso jogou em: 10.03.1996 - Fla 2 x 0 Fast Clube (AM); 20.03.96 - Fla 2 x 1 Bangu; 24.03.96 – Fla 3 x 0 Barreira, de Bacaxá-RJ; 28.02.96 – Fla 2 x 1 Coritiba; 31.03.96 – Fla 6 x 2 Olaria; 07.04.96 – Fla 2 x 0 Botafogo; 10.04.96 – Fla 2 x 1 Itaperuna; 14.04.96 – Fla 3 x 0 Madureira; 17.04.96 – Fla 0 x 0 Coritiba; 21.04.96 – Fla 2 x 2 Fluminense; 12.05.96 – 1 x 0 Volta Redonda; 16.05.96 - Fla 3 x 1 Internacional; 19.05.96 – Fla 3 x 0 Itaperuna; 25.05.96 – Fla 4 x 0 Barreira; 05.06.96 – Fla 0 x 0 Cruzeiro-BH; 10.06.96 – Fla 5 x 1 Madureira; 19.06.96 – Fla 1 x 0 Americano e 23.06.96 – Fla 4 x 1 América-RJ.
  Ao contrário de Amoroso e levando-se a relação para os chamados “termos relativos”, o brasiliense que mais perdeu defendendo o Flamengo foi o apoiador Goeber Henrique Maia, nascido em 17 de maio de 1982 e revelado pelo Gama. Flamenguista, entre 23 de abril e 7 de julho de 2006, ele disputou oito jogos, sem marcar gols, vencendo quatro – 23.04.2006 – Fla 3 x 1 Juventude-RS; 07.05.2006 – Fla 1 x 0 Botafogo; 31.05.2006 – Fla 2 x 1 Palmeiras e 25.06..2006 – Fla 3 x 2 Fast Clube-AM – empatando um – 24.05.2006 – Fla 2 x 2 Santos – e perdendo três – 30.04.2006 – Fla 0 x 1 Internacional; 28.05.2006 – Fla 0 x 1 Fluminense e 23.07.2006 – Fla 0 x 3 Santa Cruz-PE. Assim, perdeu 37,5% dos jogos disputados.
    Mas um outro brasiliense andou perto de fazer campanha invicta na Gávea. Foi Carlos Alberto Costa Dias, nascido em 5 de maio de 1967 e revelado pelo então Brasília Esporte Clube (hoje, Futebol Clube). Em 18 jogos, perdeu três (16,6%) – 27.02.1994 – Fla 1 x 3 Vasco; 25.05.1995 – Fla 1 x 2 Desportiva Ferroviária-ES e 05.06.1994 – Fla 2 x 3 Gama. Carlos Alberto Dias, ainda, empatou quatro vezes – 06.02.94 – Fla 1 x 1 Madureira; 20.03.94 – 1 x 1 Botafogo; 06.06.94 – 1 x 1 Nacional-AM e 09.06.94 – 1 x 1 Marcílio Dias-SC.
   As 11 vitórias (61,1%) do meia foram: 09.02.94 – Fla 1 x 0 Volta Redonda; 21.02.94 – Fla 4 x 0 Itaperuna; 02.03.94 – Fla 3 x 1 Americano; 07.03.94 – Fla 4 x 0 Campo Grande; 10.03.94 – Fla 3 x 2 América; 15.04.95 – Fla 3 x 1 Botafogo; 29.05.95 – Fla 1 x 0 Vasco; 31.05.94 – Fla 3 x 0 Fortaleza; 03.06.94 – Fla 2 x 1 Guarani de Campinas; 07.06.94 – 2 x 0 Avaí-SC e 21.06.94 – Fla 2 x 1 Kashima Antlers-JAP. Neste seu período rubro-negro – 06.02 a 21.06.1994 –, Carlos Alberto Dias marcou cinco gols, nos 18 jogos disputados. Foram contra Campo Grande, América, Fortaleza, Guarani e Gama.
Também, com um bom índice de vitórias pelo time rubro-negro – 46,1% –, está mais um brasiliense: o lateral-esquerdo Carlos Augusto José de Lira, revelação do Taguatinga. Nascido em 2 de março de 1966, entre 27 de julho de 1995 e 20 de novembro de 1996, ele fez 26 jogos e dois gols pelo clube da Gávea.
   Das vezes em que defendeu o Flamengo, a metade dos jogos de Lira foram internacionais. Nas suas 11 vitórias, enquanto esteve na Gávea - 01.08.1995 - Fla 3 x 1 Red Diamonds (JAP); 05.08.95 - Fla 5 x 0 Shimuzu Pulse (JAP); 11.08.95 – Fla 2 x 1 South China (CHI); 13.08.95 – Fla 3 x 2 Combinado Hong Kong/Shezen; 14.09.95 – Fla 3 x 2 Velez Sarsfield (ARG); 03.10.95 – Fla 3 x 0 Velez Sarsfield (ARG); 25.10.95 – Fla 1 x 0 Nacio9nal (URU); 01.11.96 – Fla 1 x 0 Nacional (URU); 12.11.95 – Fla 2 x 1 Goiás; 15.11.95 – Fla 1 x 0 Cruzeiro-MG; 23.11.95 – Fla 3 x 1 Cruzeiro-MG e em 06.12.95 – Fla 1 x 0 Independiente (ARG) – ele marcou dois gols, contra o South China e o Atlético-MG.
 O empates rubro-negros de Lira foram: 27.07.1995 - 1 x 1 Guarani, de Campinas-SP; 29.10.95 - 1 x 1 Vasco da Gama; 25.01.1996 - 1 x 1 Palmeiras; 28.01.96 - 0 x 0 Vasco; 03.02. 96 - 1 x 1 Madureira e em 20.11.96 - 1 x 1 Borussia Dortmund (ALE). As derrotas: 03.08.1995 - 2 x 3 Kashiva Reysol (JAP); 08.08.95 - 2 x 3 Guo na (CHI). 03.09.95 - 1 x 2 Palmeiras; 06.09.95 - 0 x 2 Paysandu - PA; 09.09.95 - 1 X 2 Corinthians; 28.09.95 - 0 x 1 Vitória-BA; 19.11.95 - 1 x 2 Atlético-MG e em 29.11.95 - 0 x 2 Independiente (ARG).

A BICHARADA DE MANGABEIRA

  Em 1945, Alvares Maciel, secretário de redação do diário Folha de Minas, jornal do governo estadual de Minas Gerais, insistiu com o desenhistas Fernando Pierucetti, o Mangabeira, para ele criar o zoológico futebolístico. E, do pedido surgiu uma grande família bicharal. De todos os representantes, o mais popular ficou sendo o Galo, do Atlético Mineiro, nascido com as cores do galo carijó, branco e preto. Grande sacada! Maciel, no entanto, queria que Mangabeira seguisse a cartilha do argentino Molas, que dera aos clubes cariocas símbolos tirados de personagens infantis dos quadrinho, como o marinheiro Popeye, do Flamengo, e o Pato Donald, do Botafogo. Mas Mangabeira não topou. Não queria imitações.
 Torcedor do América-MG, para seu time, Mangabeira criou o Coelho, que era dirigido por Gérson Sales Coelho e tinha outros dirigentes e funcionários com o mesmo sobrenome. Os americanos não gostaram, porque o coelho é um animal muito manso. Preferiam uma águia. Já o Cruzeiro foi brindado com a Raposa, por causa do dirigente Mário Grosso, considerado muito astuto, sempre chegando na frente de todos para contratar as melhores revelações.
 Além dos mascotes dos clubes mineiros, Mangabeira criou o Pica-Pau Carijó, para o Botafogo; o Lobo da Gávea, para o Flamengo; o Gato Cartola, para o Fluminense; um Rinocerante, para o Bangu; o Leão Marinho vascaíno; um Carneiro, para o São Cristóvão; o Tubarão santista; a Zebra, para a Portuguesa Carioca e o Falcão, para o Juventus. O Urubu, que Henfil criou, para o Flamengo, em 69, era o símbolo que Mangabeira bolou, para o Renascença, clube do bairro do mesmo nome, em BH, e que já não existe mais. O Democrata, de Governador Valadares, ganhou a Pantera.
 Mangabeira calculava ter feito mais de 90 mascotes de bichos, mas registrou apenas 71, na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, por iniciativa do técnico Carlos Alberto Silva, que foi seu advogado, na década 70.

quarta-feira, 31 de março de 2010

29 DE MARÇO: BAHIA, PRIMEIRO CAMPEÃO DA TAÇA BRASIL

O jogo decisivo já foi em 1960, mas a disputa ainda valia pela temporada de 1959. Bahia e Santos iniciaram a decisão do torneio que indicava o representante brasileiro à Taça Libertadores, em 10 de dezembro daquele 59, na Vila Belmiro, quando o Tricolor de Aço venceu, por 3 x 2, surpreendentemente.
Pelé abriu o placar, aos 15 minutos. Aos 27, Biriba empatou, e o primeiro tempo terminou no 1 x 1. O mais incrível, porém, viria, aos 18 minutos. Léo virou a história, para os baianos. Um pênalti, cobrado por Pepe, aos 27, voltou a deixar tudo igual. Mas quando a torcida já estava indo embora, no último minto da partida que rendeu Cr$ 868 mil 930 cruzeiros, Alencar fez 3 x 2, para o Bahia. Por aquela, ninguém nem sonhava.
A vingança do Peixe aconteceu, em 30 de dezembro, na Fonte Nova, com renda recorde, na época, de Cr$ 2 milhões, 487 mil, 230 cruzeiros. Salvador esperava ver o Bahia campeão, mas os gols de Coutinho e Pelé adiaram a festa para o ano seguinte. Mais precisamente, para a noite de 29 de março de 1960, no Maracanã, que arrecadou a menor renda dos três jogos decisivos: Cr$ 642 mil, 703 cruzeiros.
No jogo em que alguém sairia campeão, o Santos não pôde escalar o operado (quatro dias antes, das amídalas) Pelé. Melhor para o Bahia, que sapecou 3 x 1 nos favoritos, com tentos de Vicente, Léo e Alencar, descontando Coutinho parra os vice-campeões. O carioca Frederico Lopes, grande nome da época – auxiliado por Aírton Vieira de Morais e Wilson Lopes de Sousa – , apitou o jogo, expulsou de campo três santistas – Getúlio, Formiga e Dorval –  e foi chamado de “ladrão”, pelo presidente da Federação Paulista de Futebol, Mendonça Falcão.
Quem não levava em consideração que o Bahia havia vencido o Santos, dentro da Vil Belmiro, no primeiro jogo, dizia que seu time fora favorecido, naquela final, além da ausência de Pelé, por uma excursão do adversário, à cata de dólares, no exterior. O grupo santista havia regressado numa sexta-feira, jogado (e empatado, por 0 x 0) , no domingo, com o Palmeiras, pelo Torneio Rio-São Paulo, e viajado, depois do clássico, de trem, para o Rio de Janeiro. Choro discutível!
Treinado pelo argentino Carlos Volante – atleta do Flamengo, na década-40 –, o Bahia iniciou a Taça Brasil, em 23 de agosto de 1959, vencendo o Centro Sportivo Alagoano (CSA), por 5 x 0, fora de casa. Em Salvador, mandou 2 x 0. O próximo desafiante foi o Ceará Sporting, duro de cair: em Fortaleza, 0 x 0, seguido de 2 x 2, na Fonte Nova, e de Bahia 2 x 1, no desempate, também na Fonte. Seguiu-se um confronto dificílimo, contra o Sport Recife. Após derrubá-lo, em casa, por 3 x 2, o Leão da Ilha vingou-se, ferozmente: 6 x 0, em Recife. Foi preciso outro confronto, e o Bahia fez 2 x 0, no campo do rubro-negro pernambucano.
Vencida a fase nordestina, o Bahia iria pegar, pela frente, o supercampeão carioca de 1958, o Vasco da Gama, que tinha, na zaga, dois xerifões da Copa da Suécia, Hideraldo Luís Bellini e Orlando Peçanha de Carvalho. Sem medo, o time da Boa Terra foi ao Maracanã e venceu, por 1 x 0. Os cruzmaltinos devolveram a ousadia, com 2 x 1, em Salvador, onde o time de Carlos Volante foi para uma terceira “negra”, como se chamava, então, uma decisão assim, e repetiu o 1 x 0 do “Maraca”. Estava na final, para encarar o Santos, o melhor time do mundo.
Na decisão da Taça Brasil, o Bahia já era treinado por Geninho. No último jogo, formou com Nadinho; Beto, Henrique, Vicente e Nenzinho; Flávio e Mário; Marito, Alencar, Léo e Biriba. O Santos, do técnico Lula, usou: Lalá; Getúlio, Mauro, Formiga e Zé Carlos; Zito e Mário; Dorval, Pagão (Tite), Coutinho, Pelé e Pepe. Não foi uma decisão tranqüila. A partir dos 24 minutos do segundo tempo, quando Getúlio e Formiga foram expulsos de campo, num intervalo de um minuto, o Santos quis briga. Aos 32, Coutinho agrediu Nenzinho, e levou uma bofetada, de Vicente. Polícia em campo. Pouco depois, Dorval agrediu Henricão e também teve de ir embora.
O Peixe abriu o placar, aos 23 minutos do primeiro tempo, por intermédio de Coutinho, tabelando com Pagão. Aos 27, o Bahia empatou, com Vicente, cobrando falta, da intermediária. E ficou assim a etapa inicial. No segundo tempo, com um minuto, Biriba cobrou escanteio, Alencar tocou na bola e Léo virou o placar, desesperando o Santos, que já havia entrado em contato, com o argentino San Lorenzo, a fim de marcar o duelo entre eles, pela Taça Libertadores. Finalmente, aos 37 minutos, Alencar fechou a conta. O Bahia era o primeiro campeão de uma disputa nacional promovida pela Confederação Brasileira de Desportos.

sexta-feira, 26 de março de 2010

26 DE MARÇO: A BATALHA DE NUÑEZ

Foi uma verdadeira assombração, numa madrugada de sexta-feira da paixão. Brasil e Uruguai se enfrentavam, no estádio Monumental de Nuñez, em Buenos Aires, pelo Campeonato Sul-Americano. Depois da vitória uruguaia, por 2 x 1, na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã, as duas seleções só haviam se cruzado no Pan-Americano de 52, no Chile, quando os brasileiros mandaram 4 x 2.
O segundo jogo pós-Maracanazo – com os uruguaios chamaram a final do Mundial de 50 – havia começado na noite da quinta-feira santa. Perto do final do primeiro tempo, o atacante brasileiro Almir ”Pernambuquinho” Albuquerque estranhou-se com o zagueiro uruguaio Davoine, e o pau quebrou entre celestes e canarinhos. Ao final das escaramuças, o goleiro Castilho, (Fluminense) estava com os supercílios cortados; o quarto-zagueiro vascaíno Orlando Peçanha de Carvalho com os lábios abertos; o zagueiro central Bellini (Vasco), o goleiro Gilmar (Corinthians), o meia-armador Didi (Botafogo) e os atacantes Almir (Vasco) e Pelé (Santos) com escoriações generalizadas. Pelo lado uruguaio, o capitão e zagueiro William Martinez perdera um dente e levara três pontos na cabeça; o atacante Sasía apresentava seu olho esquerdo sangrando e Roque Fernandez com os ombros feridos.
A pancadaria durou 50 minutos, ao final da qual o árbitro chileno Carlos Robles expulsou de campo só os brigões Almir, Orlando, Davoine e Gonçalves. Ouvido pelo número 512, da revista Placar, de 22 de fevereiro de 1980, o capitão uruguaio, William Martinez, de 1,82 m de altura e pesando, na época, 82 kg, contou que só brigou “porque Bellini agredira (o reserva) Alvarez. O capitão uruguaio ainda acusou o massagista Mário Américo de derrubá-lo e Pelé de chutá-lo na cabeça. Na mesma reportagem de Placar, Mário Américo dá a sua versão, dizendo que Martinez tentou lhe acertar um soco, não conseguido porque ele fora boxeador, se esquivara e conseguira lhe aplicar uma gravata (golpe pelo pescoço), derrubando-o e caindo junto com ele, que foi chutado por Coronel, Bellini e Pelé.
De sua parte, Bellini, afirmou à revista que ouvira o massagista uruguaio gritando para William Martinez arrumar uma briga e que o grandalhão ameaçou quebrar-lhe a cara, no momento em que era derrubado por Mário Américo. Também acusou Sasía de jogar-lhe areia nos olhos e lhe dar um pontapé, por trás, depois do final da partida. Nesse ponto, contou o zagueiro, acertou um murro na boca do uruguaio, que ainda levou uma tesoura-voadora (pulo em horizontal no ar e pancada com os dois pés no adversário) desferida por Didi e mais uma pancada do preparador físico Paulo Amaral.
Bellini ainda acusou Davoine de distribuir pontapés e fez um relato satírico sobre o conflito. Segundo ele, ao ver Garrincha pardo, com os braços cruzados, o indagou se ele, também, não iria entrar na briga, e ouviu a resposta: “Ah! Ninguém veio me bater”.
Em seu livro, “Eu e o Futebol”, Almir fala dessa briga e diz que após disputar um lance, pelo alto, com o goleiro uruguaio Leiva, ele levou um pontapé, na bunda, desferido por William Martinez, e mais um chute de Davoine. O seu relato acrescenta que Pelé tentou defendê-lo e foi empurrado. Então, Orlando agrediu Davoine. Em seguida, ele partiu pra cima de Martinez, aos pontapés, enquanto Didi batia na cara do inimigo e Chinesinho corria de um uruguaio, pela lateral do campo.
Quanto ao jogo, o Brasil venceu, por 3 x 1, de virada, com três gols do botafoguense Paulo Valentim, aos 17, 35 e 44 minutos do segundo tempo – Escalada havia aberto o placar, para os uruguaios, aos 42, da primeira etapa. Naquela noite, a Seleção Brasileira entrara em campo com um ponto perdido, no empate com os peruanos, enquanto os uruguaios haviam perdido dois, numa derrota para o mesmo adversário. A Argentina, que vencera todas, liderava. Assim, entre Brasil e Uruguai, quem perdesse, dificilmente, teria chances de título.
Na seqüência do torneio, o Brasil ainda mandou 4 x 1 pra cima dos paraguaios e foi prejudicdo na decisão, contra os argentinos, no jogo que ficou no 1 x 1 e deixou os anfitriões com um ponto a mais, porque o chileno Carlos Robles encerrou a partida quando Garrincha passou pelo goleiro, chutou e a bola ia entrando. Mas este é um choro que fica para o folclore do futebol.
O time brasileiro da “Batalha de Nuñez” foi: Castilho (Gilmar); Djalma Santos, Bellini, Orlando e Coronel (Paulinho Valentim); Formiga e Didi; Garrincha, Almir, Pelé e Chinesinho. O uruguaio foi: Leiva; Davoine, William Martinez, Silveira e Gonçalves; Messias e Borges (Roque Fernandez); Demarco, Douksas, Sasía e Escalada (Aguilera).

quinta-feira, 25 de março de 2010

25 DE MARÇO: O GALO CANTA FORTE EM BH

Capital mineira, desde 1897 – a anterior era Ouro Preto -, Belo Horizonte não tinha mais do que 14.500 habitantes, nos inícios do século 20. Já contava com cursos de Direito, de Engenharia e de Medicina, e vivia sob uma crise econômica que prejudicava comércio e indústria. Diversões, praticamente, inexistiam. Foi por causa daquilo que um carioca, estudante de curso jurídico, Víctor Serpa, reuniu amigos e fundou, em 10 de junho de 1904, o Sport Clube Foot-Ball, primeira iniciativa do gênero em Minas Gerais.
Formado o time, o primeiro jogo de futebol em BH foi em 3 de outubro, do mesmo ano, com a turma do Víctor vencendo uma equipe formada por Oscar Americano, por 2 x 1. Pouco depois, surgiram o Plínio Futebol Clube e o Clube Athlético Mineiro, que, ainda, não seria o atual “Galo forte e vingador”.
Enquanto a bola rolava em “Beagá”, foram surgindo o Brasil, o Estrada, o Juvenil e o Viserpa (todos Futebol Clube), enquanto o Athlético passou a chamar-se Athlético Mineiro Foot-Ball Club. Mas, como aquele movimento perdia força durante as férias escolares - Brasil e Viserpa acabaram – restavam só desanimadas peladas. Passear no Parque Municipal era mais interessante. Menos para Margival Mendes Leal, Mário Toledo, Raul Fracarolli e Augusto Soares. Em 25 de março de 1908, eles “mataram aula” e foram “pensar” o Atlético Mineiro Futebol Clube, aportuguesando o nome do antigo e já inexistente xará.
Além dos fundadores citados acima, também, foram “pais do Galo” a patota formada por Sinval Moreira, Mário Neves, Hugo Fracarolli, Mário Hermanson Lott, Carlos Maciel, João Barbosa Sobrinho, José Soares, Alves, Eurico Catão, Aleixanor Alves Pereira, Humberto Moreira, Antônio Antunes Filho, Horácio Machado, Humberto Moreira, Benjamin Moss Filho, Leônidas Fulgêncio e Júlio Menezes Melo – Mauro Brochado, Francisco Monteiro e Jorge Dias Pena não puderam estar presentes à reunião, mas aderiram à idéia. Por isso, também, são considerados fundadores. Escolhido presidente, Margival teve Lott por secretário e Catão por tesoureiro.
Fundado o clube, havia, no entanto, um problema: onde encontrar bolas para comprar, se o comércio belo-horizontino não as vendia? Mas apareceu uma, muito usada, que serviu para os primeiros pontapés do Galo, quando o treinador Chico Neto alinhava Eurico, Mauro e Leônidas; Raul, Mário Toledo e Hugo; Francisco, Lott, Margival, Horácio e Benjamin, nos treinos iniciais. Em 21 de março de 1909, o time estreou, vencendo o Sport Club, por 3 x 0, com gols de Aníbal Machado, Zeca Alves e Mário Neves, que haviam barrado, respectivamente, Mário Lott, Horácio e Francisco Monteiro.
Animados, os atleticanos concederam s revanches ao Sport Club, e não só o venceram, por 2 x 0 e 4 x 0, como, ainda, decretaram o seu fim, já que os derrotados decidiram mudar de lado. Assim, o Athlético foi-se tornando vencedor, só vindo a conhecer um insucesso mais de três anos depois – em 12 de maio de 1912 –quando foi batido, por 5 x 1, pelo Instituto Granbery, de Juiz de Fora, na sua primeira apresentação intermunicipal.
Em 25 de março de 1913, a rapaziada trocou o nome da agremiação, para Clube Atlético Mineiro, estreando a nova denominação com a conquista do título do primeiro torneio interclubes promovido pela Liga de Futebol de Belo Horizonte, vencendo ao Yale (futuro Palestra Itália, Ypiranga e, finalmente, Cruzeiro), por 2 x 0, ao América, por 3 x 0, e ao combinado Yale/América, por 2 x 0.
Em 1915, disputou-se o primeiro campeonato oficial de BH. E o campeão, quem foi? O time alvinegro. Foram vitórias que tornaram o Atlético Mineiro simpático e popular entre pobres, ricos, gringos, pretos e brancos, ao contrário dos elitistas América, que preferia estudantes de Medicina e ricaços, e o Yale, dos italianos que não se misturavam ao povão.
CASA DO GALO - O início da construção de um estádio, na Avenida Olegário Maciel, em 1926, coincidiu com mais um título – bi, em 1927. Antes, o clube ganhara, da prefeitura de BH, um terreno, na Rua Guajajaras, trocado, depois, por outro, na Avenida Paraopeba, atual Augusto de Lima. Requisitado, mais tarde, pelo Estado, este mandou o Galo para a Olegário Maciel.
Por aquela época, surgiu a primeira convocação de um atleticano, para a Seleção Brasileira, a do atacante Mário de Castro, que amava mais o seu clube e recusou a honraria. Preferia marcar gols pelo Atlético. Por exemplo, em 30 de junho de 1929, quando os alvinegros inauguraram o Estádio Presidente Antônio Carlos, Mário fez três dos quatro tentos – o outro foi de Said – nos 4 x 2 sobre o lendário time do Corinthians Paulista, que muitos mineiros até duvidavam que existisse.
Mário de Castro, num tempo em que se jogava pouco, marcou 195 gols – média de 2,2 por jogo – , em 90 partidas, só sendo superado, em 1974, por Dario (José dos Santos), o Dadá Beija Flor.
CAMPEÃO DOS CAMPEÕES – Em 1930, com Belo Horizonte ocupada pelos rebeldes que colocaram Getúlio Vargas no poder, o Atlético Mineiro não disputou o campeonato da cidade. Voltou, no ano seguinte, e foi bi, sendo que, em 32, havia duas ligas. Novamente, levou o bi, em 38/39. Antes disso, em 1937, conauistou o primeiro interestadual de clubes do país, promovido pela Federação Brasileira de Futebol, o que lhe valeu a alcunha de “Campeão dos Campeões”, após os 3 x 2, na decisão, em São Paulo, contra a Portuguesa de Desportos – participaram, ainda, o Fluminense e o Rio Branco, de Vitória-ES.
Em 1942, os atleticanos conquistariam outra glória: bi de BH, com vitórias nos 11 jogos disputados. E dobraram a sua torcida, em relação à do América. Em 1947, no “Cinquentenário de Belo Horizonte”, novo bi, com um time inesquecível: Kafunga, Murilo e Ramos; Mexicano, Zé do Monte e Afonso; Lucas, Lauro, Carlyle, Alvinho e Nívio – para trás, os primeiros grandes ídolos foram Brant, Said, Mário de Castro, Jairo, Mário Gomes, Binga, Zezé Procópio, Guará, Alfredo Bernardino, Florindo, Nicola, Manja, Cafifa e Selado, entre outros.
CAMPEÃO DO GELO – Campeão belo-horizontino, em 1949/50, neste último ano, o Galo Carijó – personagem criado, em 1945, pelo ilustrador da “Folha de Minas”, Fernando Pierucetti, o Mangabeira, a pedido do jornalista Álvares Maciel, que desejava ter os clubes mineiros com símbolos – tornou-se o primeiro clube mineiro a excursionar à Europa. Venceu seis adversários fortes, como o alemão Schalke (3 x 1) e o francês Stade Uninon (2 x 1), empatou duas vezes e perdeu outras duas, entre 1º de novembro e 7 de dezembro, jogando até debaixo de seis graus negativos. A façanha foi comparada, pelo jornal “Estado de Minas” com a equivalência de um título, razão pela qual o clube passou a colecionar uma outra alcunha, a de “ Campeão do Gelo”.
No entanto, um outro grande feito estava a caminho. De 1952 a 56, os “galenses” faturaram um penta – em 56, decidindo no campo e no tapetão, contra o Cruzeiro, que já era o segundo clube mineiro mais forte, deixando o América pra trás. O Galo voltou a beliscar, em 58, 62 e 63, iniciando, a partir de então, um jejum de títulos que só terminaria em 1970, o seu primeiro na era do Mineirão.
VITÓRIA SOBRE A SELEÇÃO BRASILEIRA – Era noite de uma quarta-feira, 3 de setembro de 1969. O time canarinho, treinado por João Saldanha e disputando as eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, foi ao Mineirão, encarar o Galo. Aos 40 minutos do primeiro tempo, o apoiador Oldair ganhou uma jogada, no meio do campo, e serviu ao meia Humberto Ramos, que passou a bola para Amauri. Este penetrou na área e pipocou o filó: Galo 1 x 0.
Aos 3 minutos do segundo tempo, o lateral-direito canarinho, Carlos Alberto Torres, lançou a bola na área, a defesa atleticana tentou deixar Pelé em impedimento, mas este cabeceou, marcou e o tento foi validado: 1 x 1. Aos 19, Dario disparou, pela esquerda, ganhou, na corrida, de Djalma Dias e de Joel, e desempatou a partida: Atlético Mineiro 2 x 1.
O Galo que devorou os “Canarinhos”, usando as camisas vermelhas da Federação Mineira de Futebol, por imposição da Confederação Brasileira de Futebol (CBD), antecessora da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), foi: Musssula; Humberto Monteiro, Grapete, Normandes e Cicuneggi (Vantuir); Oldair e Amauri; Ronaldo, Vaguinho, Dario, Laci e Tião (Caldeira). A Seleção Brasileira jogou com: Félix; Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel Camargo e Rildo (Everaldo): Piazza e Gerson (Rivellino); Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu (Paulo César Lima).
A vitória sobre o time de João Saldanha, no entanto, não fora a primeira do Galo sobre uma seleção nacional. Em 19 de dezembro de 1968, representando o escrete nacional, com as camisas canarinhas, o Atlético Mineiro venceu a então Iugoslávia, por 3 x 2, no Mineirão, após os visitantes abrirem dois gols de frente, em poucos minutos. Naquela partida, Yustrich mandou ao garmado:: Mussula; Vander, Normandes (Djalma Dias), Grapete e Décio Teixeira; Wanderley e Amauri; Ronaldo, Vaguinho, Lola e Tião (Caldeira). Depois daquilo, o Galo ainda empatou, por 2 x 2, com a seleção da Hungria, e venceu a da hoje extinta União Soviética, por 2 x 1.
PRIMEIRO CAMPEÃO NACIONAL – Embora a CBD já apontasse dois times, desde 1959, para representar o país na Taça Libertadores da América, só a partir de 1971 a entidade passou a reconhecer um campeão nacional. E o primeiro foi o Galo.
Treinado por Telê Santana, o Atlético Mineiro chegou ao título do primeiro Brasileirão, com 11 vitórias, 10 empates e 5 derrotas, marcando 38 gols em 26 jogos. Além disso, ainda teve o principal artilheiro do campeonato, Dario, com 14 gols. O jogo do título foi contra o Botafogo, no Maracanã, em 19 de dezembro daquele 1971, com o gol da conquista marcado aos 13 minutos do segundo tempo, pelo Dadá Maravilha, complementando, de cabeça, cruzamento feito por Humberto Ramos.
O time atleticano foi campeão jogando com: Renato; Humberto Monteiro, Grapete, Vantuir e Oldair; Vanderlei e Humberto Ramos; Ronaldo, Lola (Spencer), Dario e Tião. O Botafogo foi: Wendell; Mura, Djalma Dias, Queirós e Valtencir; Carlos Roberto e Marco Antônio (Didinho); Zequinha, Nei (Tuca), Jairzinho e Careca. Armando Marques apitou a partida, com renda de Cr$ 294.420,00 (cruzeiros), a moeda da época.
DOMINADOR DE RAPOSA – Campeão estadual, em 1970 e em 76, o Galo engoliu a Raposa, entre 1978 e 1983. Faturou, ainda, dois bis, em 85/86 e em 88/89.
O período de domínio quase total sobre os cruzeirenses teve a assinatura de uma geração que produziu o goleiro João Leite, o zagueiro Luizinho, os apoiadores Toninho Cerezzo e Elzo, o meia Heleno e os atacantes Paulo Isidoro, Sérgio Araújo, Reinaldo e Éder, entre outros. Desses, o maior ídolo foi Reinaldo, que vestiu a camisa atleticana, entre 1971 e 1985. Seu talento era tão grande que os “becões assassinos” lhe mandaram passar por quatro cirurgias de joelhos e uma de tornozelo.
Nascido em Ponte Nova-MG, em 11 de janeiro de 1957, Reinaldo José de Lima chegou ao Galo, com 13 anos de idade, estreou no time principal, aos 16, e saiu após deixar 288 gols nas redes adversárias, o que ainda lhe faz de o maior “matador” da história do clube.
RECENTEMENTE - Na década-90, o Atlético Mineiro conquistou apenas três títulos estaduais – 1991, 95 e 99. Mas emplacou duas conquistas continentais, as Copas Conmebol (atual Mercosul) de 1992 e 97. Neste século, foi campeão mineiro em 2000 e em 2007, o que lhe deixa como o maior papão de títulos das Alterosas, isto é, 39, contra 34 do grande rival Cruzeiro.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

2 DE JANEIRO DE 1921: SURGE O PALESTRA ITÁLIA, FUTURO CRUZEIRO

 Em 1920, Belo Horizonte tinha 50 mil habitantes, pequenos comércio e indústria, e pouca diversão. A principal era passear no Parque Municipal, nos finais de semana. Por aquela época já havia clubes praticando o futebol na cidade, como o Clube Athlético Mineiro, o preferido pelo povão mais humilde, o América Futebol Clube, elitista e campeão, o Lusitano Athletic Club, criado pela colônia portuguesa, e o Yale, que era “inimigo da vitória” e logo acabou.
 A colônia italiana transitava por todos aqueles clubes, mas não gostava muito da mistura. Assim, Nullo Savini, Sílvio e Henriqueto Pirani, João Ranieri, Domingos Spangulo, Júlio Lazzarotti e Amleto Magnavacca lideraram um movimento que aproveitou o fim do Yale, para seguir o espírito dos patrícios paulistas – a maioria trabalhadores nas indústrias Matarazzo –, que, em 26 de agosto de 1914, haviam criado a Societá Sportiva Palestra Itália – hoje, Sociedade Esportiva Palmeiras–, para torcerem por um mesmo clube, durante as disputas do Campeonato Paulista de Futebol.
 Lançada a idéia, a turma conseguiu o apoio das já importantes famílias Noce, Mancini, Savassi e Lodi, e a promessa de ajuda financeira de outros italianos. Com isso, marcou-se uma reunião, para o dia 20 de dezembro daquele 1920, na Societá Italiana Dante Alighieri, que ficava na Rua Tamoios e que contou com a presença do cônsul italiano e de 195 “oriundi” – 92 assinaram a ata – muitos deles já da segunda geração daqueles imigrantes. Mas a fundação oficial da Societá Sportiva Palestra Itália mineira – futuro Cruzeiro Esporte Clube – só foi acontecer em 2 de janeiro de 1921, no mesmo local do encontro anterior, com a participação de 250 italianos.
 A primeira diretoria palestrina, eleita por aclamação, teve Aurélio Noce (presidente); Giuseppe Perona (vice); Bruno Piancatelli (secretário); Aristóteles Lodi (tesoureiro); João Ranieri, Domingos Spangulo e Antônio Pace (comissão de esportes).
 Para mandar seu time a campo, o Palestra Itália usava camisa verde, com gola olímpica, calção branco e meias vermelhas, com detalhes em verde e branco. O uniforme-2 era o inverso, predominando o branco. Na montagem da primeira equipe, foram reunidos 13 jogadores do antigo Yale, por sinal, fundado por Aurélio Noce e Nullo Savini, em 1910, além de italianos que defendiam o Athlético Mineiro, o Ipanema e o Guarany. O primeiro jogo foi em 3 de abril, ainda de 1921, no Estádio do Prado, vencendo o combinado Villa Nova/Palmeiras, de Nova Lima-MG, por 2 x 0, com os dois marcados pelo atacante Nani. O time foi: Nullo, Polenta e Ciccio; Quiquino, Américo, Bassi e Lino; Spartaco, Nani, Henriqueto e Armandinho.
CRESCIMENTO – Inscrito na Liga Mineira de Desportos Terrestres, o Palestra teve de submeter-se a testes, para ser admitido na Primeira Divisão: enfrentar o campeão da Segundona (Palmeiras) e o último da Primeirona (Ipanema), os quais venceu, respectivamente, por 2 x 1 e 3 x 2. De quebra, em seu primeiro campeonato da Liga Mineira, ainda em 1921, terminou vice-campeão.
Futuro inimigo número 1 do Atlético, o Palestra passou por uma situação inusitada, nos seus inícios: como o terreno herdado Yale foi desapropriado, pelo governo mineiro, para treinar, tinha que pedir o campo do Galo (ainda não era chamado assim) emprestado. Em dezembro de 1922 comprou um quarteirão, ao lado de sua antiga casa e, em setembro de 1923, inaugurou o seu estádio, que tinha arquibancadas de madeira. A festa foi num amistoso que terminou empatado, por 3 x 3, com o Flamengo.
Por não aceitar jogadores e associados que não fossem italianos, o Palestra tornou-se antipatizado no futebol mineiro. Precisou abolir esta cláusula estatutária, para progredir. Em 1928, o presidente Américo Gasparini seguiu América e Atlético, que já aderiam ao “profissionalismo marrom”, formou um time forte, com reforços buscados em São Paulo e tirados do Sírio, de BH. Treinado por Maturio Fabbi e tendo por astros Arnaldo, Morganti, Morgantinho, Osto, Gutiérrez, Nereu, Zezinho e Carranza, o Palestra conquistou o seu primeiro título mineiro, naquela 1928, com sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota.
Em 1929, quando BH já tinha 105 mil habitantes, o Palestra foi bi. Em 30, quando a capital mineira tornou-se, politicamente, importante e decisiva na chegada de Getúlio Vargas ao poder, o time era tri, invicto, tendo por astro o atacante Niginho, um dos maiores nomes do futebol brasileiro, levado pelo italiano Lazio. Na mesma década, o clube aportuguesou seu nome, para Sociedade Esportiva Palestra Itália.
Em 1942, devido a eclosão da II Guerra Mundial e da aliança Itália-Alemanha, o clube jogou uma partida oficial – 01.02.1942, perdendo, para o Atlético, por 1 x 0 –, usando camisas azuis e três listras horizontais brancas. Em 4 de fevereiro, mudou de nome, para Sociedade Esportiva Palestra Mineiro, cujo escudo, um P, no centro do peito, foi lançado em 24 de maio, durante a goleada, oficial, por 7 x 2, sobre o Sete de Setembro, no Estádio do Barro Preto.
A CONSTELAÇÃO – Como, em 28 de janeiro de 1942, o governo brasileiro declarara guerra à Alemanha, à Itália e ao Japão, seis meses depois – 31.08.42 – proibiu o uso, no país, de símbolos de nações inimigas. Então, o presidente palestrino, Ennes Cyro Pony, em 2 de outubro, fez nova mudança: de nome e de camisa. Ficou sendo Ypiranga, com jaquetas vermelhas e um Y no peito. Chegou a jogar uma partida oficial, a qual perdeu, por 1 x 2, do Atlético, em 4 de outubro.
Foi na mesma assembleia em que Pony anunciou as duas trocas, que surgiu a sugestão Cruzeiro Esporte Clube, em homenagem ao Cruzeiro do Sul. A proposta partiu do ex-presidente Oswaldo Pinto Coelho, mas, oficialmente, o clube continuou com a sua primeira denominação, devido a demora da Federação Mineira de Futebol em aprovar os seus novos estatutos. E, como Cruzeiro, o clube só jogar em 1943. Com as estrelas na camisa azul, o primeiro jogo foi em 14 de fevereiro, perdendo do São Cristóvão-RJ, por 5 x 3, amistosamente, no Barro Preto. Detalhe: o clube carioca fazia a sua primeira partida com uma nova denominação, São Cristóvão Futebol e Regatas. Na véspera, homologara a sua fusão, com o São Christovão Athlético Club e o Club de Regatas São Chirstovão.
Como Palestra, o clube foi campeão em 1928, 29, 30 e em 1940, na disputa chamada de Campeonato da Cidade. Como Cruzeiro, já foi papando os três primeiros que participou, em 1943, 44 e 45. O Campeonato Mineiro só começou a partir de 30 de outubro de 1959, com o surgimento da Taça Brasil, disputada pelos campeões estaduais. A Federação Mineira de Futebol reuniu os times que disputavam o Campeonato da Cidade e mais outros seis – cinco do interior – e promoveu um torneio eliminatório, para selecionar oito. O Cruzeiro foi tri – 1959, 60 e 61.
O restante das glórias cruzeirenses serão publicadas pelo Candangol nas datas em que foram conquistadas, casos do penta mineiro, de 65 a 69; da Taça Brasil de 1966 e da Taça Libertadores de 1976, entre outros. Aguarde!